Seth Ben Israel


História do povo hebreu 

A Bíblia é a referência para entendermos a história deste povo. De acordo com as escrituras sagradas, por volta de 1800 AC, Abraão recebeu uma sinal de Deus para abandonar o politeísmo e para viver em Canaã ( atual Palestina). Isaque, filho de Abraão, tem um filho chamado Jacó. Este luta , num certo dia, com um anjo de Deus e tem seu nome mudado para Israel.  

Os doze filhos de Jacó dão origem as doze tribos que formavam o povo hebreu. Por volta de 1700 AC, o povo hebreu migra para o Egito, porém são escravizados pelos faraós por aproximadamente 400 anos. A libertação do povo hebreu ocorreu por volta de 1300 AC. A fuga do Egito foi comandada por Moisés, que recebeu as tábuas dos Dez Mandamentos no monte Sinai. Durante 40 anos ficaram peregrinando pelo deserto, até receberem um sinal de Deus para voltarem para a terra prometida, Canaã.

cultura e história dos hebreus Moisés recebendo as tábuas dos Dez Mandamentos

Jerusalém é transformada num centro religioso pelo rei Davi. Após o reinado de Salomão, filho de Davi, as tribos dividem-se em dois reinos : Reino de Israel e Reino de Judá. Neste momento de separação, aparece a crença da vinda de um messias que iria juntar o povo de Israel e restaurar o poder de Deus sobre o mundo. 
Em 721 começa a diáspora judaica com a invasão babilônica. O imperador da Babilônia, após invadir o reino de Israel, destrói o templo de Jerusalém e deporta grande parte da população judaica.

No século I, os romanos invadem a Palestina e destroem o templo de Jerusalém. No século seguinte, destroem a cidade de Jerusalém, provocando a segunda diáspora judaica. Após estes episódios, os hebreus espalham-se pelo mundo, mantendo a cultura e a religião. Em 1948, o povo hebreu retoma o caráter de unidade após a criação do estado de Israel.



Escrito por seth.israel às 10:14 PM
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Introdução 

O judaísmo é considerado a primeira religião monoteísta a aparecer na história. Tem como crença principal a existência de apenas um Deus, o criador de tudo. Para os judeus, Deus fez um acordo com os hebreus, fazendo com que eles se tornassem o povo escolhido e prometendo-lhes a terra prometida.
Atualmente a fé judaica é praticada em várias regiões do mundo, porém é no estado de Israel que se concentra um grande número de praticantes.

Conhecendo a história do povo judeu 

A Bíblia é a referência para entendermos a história deste povo. De acordo com as escrituras sagradas, por volta de 1800 AC, Abraão recebeu uma sinal de Deus para abandonar o politeísmo e para viver em Canaã (atual Palestina). Isaque, filho de Abraão, tem um filho chamado Jacó. Este luta , num certo dia, com um anjo de Deus e tem seu nome mudado para Israel. Os doze filhos de Jacó dão origem as doze tribos que formavam o povo judeu. Por volta de 1700 AC, o povo judeu migra para o Egito, porém são escravizados pelos faraós por aproximadamente 400 anos. A libertação do povo judeu ocorre por volta de 1300 AC. A fuga do Egito foi comandada por Moisés, que recebe as tábuas dos Dez Mandamentos no monte Sinai. Durante 40 anos ficam peregrinando pelo deserto, até receber um sinal de Deus para voltarem para a terra prometida, Canaã.

Jerusalém é transformada num centro religioso pelo rei Davi. Após o reinado de Salomão, filho de Davi, as tribos dividem-se em dois reinos : Reino de Israel e Reino de Judá. Neste momento de separação, aparece a crença da vinda de um messias que iria juntar o povo de Israel e restaurar o poder de Deus sobre o mundo. 
Em 721 começa a diáspora judaica com a invasão babilônica. O imperador da Babilônia, após invadir o reino de Israel, destrói o templo de Jerusalém e deporta grande parte da população judaica.

No século I, os romanos invadem a Palestina e destroem o templo de Jerusalém. No século seguinte, destroem a cidade de Jerusalém, provocando a segunda diáspora judaica. Após estes episódios, os judeus espalham-se pelo mundo, mantendo a cultura e a religião. Em 1948, o povo judeu retoma o caráter de unidade após a criação do estado de Israel.

Os livros sagrados dos judeus 

A Torá ou Pentateuco, de acordo com os judeus, é considerado o livro sagrado que foi revelado diretamente por Deus. Fazem parte da Torá : Gênesis, o Êxodo, o Levítico, os Números e o Deuteronômio. O Talmude é o livro que reúne muitas tradições orais e é dividido em quatro livros: Mishnah, Targumin, Midrashim e Comentários. 

Rituais e símbolos judaicos 

Os cultos judaicos são realizados num templo chamado de sinagoga e são comandados por um sacerdote conhecido por rabino. O símbolo sagrado do judaísmo é o memorá, candelabro com sete braços.

Memorá : candelabro sagrado

Entre os rituais, podemos citar a circuncisão dos meninos ( aos 8 dias de vida ) e o Bar Mitzvah que representa a iniciação na vida adulta para os meninos e a Bat Mitzvah para as meninas ( aos 12 anos de idade ).
Os homens judeus usam a kippa, pequena touca, que representa o respeito a Deus no momento das orações.
Nas sinagogas, existe uma arca, que representa a ligação entre Deus e o Povo Judeu. Nesta arca são guardados os pergaminhos sagrados da Torá.

As Festas Judaicas 

As datas das festas religiosas dos judeus são móveis, pois seguem um calendário lunisolar. As principais são as seguintes:
Purim - os judeus comemoram a salvação de um massacre elaborado pelo rei persa Assucro. 
Páscoa ( Pessach ) - comemora-se a libertação da escravidão do povo judeu no Egito, em 1300 AC. 
Shavuót - celebra a revelação da Torá ao povo de Israel, por volta de 1300 a.C.
Rosh Hashaná - é comemorado o  Ano-Novo judaico.
Yom Kipur - considerado o dia do perdão. Os judeus fazem jejum por 25 horas seguidas para purificar o espírito.
Sucót -  refere-se a peregrinação de 40 anos pelo deserto, após a libertação do cativeiro do Egito. 
Chanucá - comemora-se o fim do domínio assírio e a restauração do tempo de Jerusalém. 
Simchat Torá - celebra a entrega dos Dez Mandamentos a Moisés.



Escrito por seth.israel às 10:13 PM
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a poesia hebraica moderna

 

 

 

A moderna literatura hebraica não nasceu em Israel, mas teve início com a Haskalá, o Iluminismo judaico, em diversos países da Europa, principalmente Rússia e Polônia. O renascimento formal da poesia foi marcado pelo jornal Ha-Meassêf (O colecionador, 1783-1829, com diversas interrupções, fundado em Königsberg, Alemanha), editado pelo círculo de Ilustrados de Mendelssohn, para o qual inúmeros poetas colaboraram com versos sobre temas leigos.

 

Os escritores carregavam, por um lado, uma formação judaica tradicional e, por outro, influências do pensamento europeu. Do confronto destes mundos de idéias foram escritas suas obras, mesclando judaísmo religioso e laico, além de concepções judaicas e não judaicas.


Muitos falam no “milagre do renascimento” do hebraico, mas o verdadeiro milagre não foi o seu renascimento e, sim, sua imortalidade durante um período tão grande. Durante a Diáspora, iniciada após a destruição do Segundo Templo, continuou-se criando literatura em hebraico, mantendo viva a língua escrita. No final do século XIX, ela voltou a ser falada como um idioma cotidiano, transformando-se no novo lar lingüístico judaico.


No início, a criação literária moderna em hebraico foi principalmente poética, impregnada pela Bíblia e pelo Talmud, trazendo influências do iídiche, da poesia laica da Idade Média e da linguagem cabalística, além de inspiração da história e da literatura mais recente.


Vendo nas palavras um reflexo do destino do homem, constata-se que ocorreu um milagre com o povo judeu: graças à força que as palavras encerram, foram-lhe devolvidos seu destino e sua terra. Foi com o vigor da fé no significado das palavras que lhe foi possível criar a realidade de sua vida. “Este é um dos casos raros na história humana em que as próprias palavras produziram história” (Ben Zion Tomer, prefácio da Antologia Poesia e Prosa de Israel, organizada por Cecília Meireles, 1968).


Após a Primeira Guerra Mundial, o principal centro da cultura hebraica, no Império Czarista, sofreu uma fragmentação geográfica e política, sendo o hebraico e sua cultura oficialmente banidos da União Soviética comunista. Já na primeira década do século XX, foram criados, paralelamente ao centro russo da literatura hebraica, outros centros, no Leste europeu, nos Estados Unidos e na Palestina, hoje Israel.


Devido ao processo histórico-social do judaísmo moderno, que percebeu nas correntes do sionismo as possibilidades de uma subsistência cultural e nacional, o centro da literatura hebraica deslocou-se, desde o início do século XX, para Israel, tornando-se mais evidente depois de 1918, não apenas porque os principais autores hebreus emigraram para lá, devido a suas ideologias pessoais e às circunstâncias políticas reinantes na Europa, mas também porque a comunidade judaica local passou a desempenhar um papel cada vez mais importante na vida dos judeus da Diáspora.


“Renovar-se ou perecer era o dilema irrecusável. A escolha efetuou-se através de uma minoria consciente e organizada que, encarnando as forças vivas do povo e as idéias, forças de sua história, fez-se agente de seu destino. Compreendendo este renovar-se como um esforço individual e coletivo de auto-reconstrução, dirigiu-se para o polo milenar da vida judaica, o ponto mais carregado de tradições e esperanças nacionais e, portanto, o mais apto a suscitar a utopia e a praxis, a visão e a ação, o idealismo romântico que pode levar a todos os sacrifícios e o realismo pragmático que não subestima a menor dificuldade, indispensáveis ao êxito da tentativa. Criou-se, assim, a síntese de vontades que forjou as novas bases de sobrevivência do povo judeu”. “Foi com esta missão que grande parte de seus escritores emigrou para a Terra Santa e participou literal e literariamente do trabalho de restauração” (J. Guinsburg, Nova e velha pátria, 1966).


A literatura hebraica contemporânea colheu ecos de seu desenrolar e repercutiu as vozes de seus promotores, com forte vibração social. O pioneirismo foi um dos movimentos que, ao lado das correntes estéticas modernistas, marcou o espírito e as tendências da literatura hebraica na Palestina, principalmente na década de 20. Na temática do halutz, do jovem pioneiro que através do labor pessoal e da disposição para o sacrifício realizava a construção redentora do povo, inspirou-se vasta produção poética. Convém esclarecer que nem todos os de sua época podiam ser classificados como halutzim .


Sente-se nos poemas da geração dos pioneiros o entusiasmo do homem que descobre uma vida nova, paisagens novas, que procura traduzir em sua obra poética este reencontro com uma terra desértica e seu amor por ela; mas revela-se, também, a nostalgia de sua infância no leste europeu, ecos da linguagem bíblica, bem como influências da poesia européia contemporânea, integradas no que o homem judeu tinha de mais específico nele. Ainda que o mundo particular da maioria dos poetas estivesse dividido entre lembranças da infância e da juventude “lá” e as experiências do presente, desejavam aprofundar raízes “aqui”: “a dor de duas terras natais”, como chamado posteriormente por Léa Goldberg (Reuven Kritz, "Hebrew poetry in our generation", in Modern hebrew literature, New Series, nº 1, 1988).


A poesia hebraica moderna teve seu início com Hayim Nahman Bialik (Ucrânia, 1873-1934, Palestina) e Shaul Tchernihovsky (Rússia, 1875-1943, Palestina), os principais autores do período conhecido como do “Renascimento”. Bialik trouxe para a poesia hebraica a voz do homem concreto, que faz ouvir os seus versos em circunstâncias definidas de vida sobre um pano de fundo de um passado biográfico, a partir de um espaço interior pessoal, com limites precisos. Antes dele, a poesia hebraica estava imersa numa esfera neoclássica tardia e num sentimentalismo global. Bialik descobriu um eu poético que, ao mesmo tempo, serve de símbolo e está enraizado na realidade consciente e biográfica única. A partir do núcleo da existência pessoal, era possível desenvolver um diálogo com o que se encontra além do eu: com a natureza, com o povo judeu, sua história e sua cultura e, até, um diálogo tenso com Deus. Se Bialik trouxe para a poesia a interioridade do homem, descrita por Kant, Tchernihovsky trouxe a concepção do homem como parte minúscula do cosmo, sujeito às suas leis, influenciado por Goethe, e por Nietzsche, em seu modelo romântico. Bialik era um lírico e Tchernihovsky conferiu à poesia um caráter épico, principalmente em seus idílios. Esses contrastes enriqueceram a poesia hebraica, não criando territórios poéticos separados nem impondo aos poetas jovens, influenciados pelos dois, que escolhessem um ou outro.



Escrito por seth.israel às 10:10 PM
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O período entre as duas guerras mundiais, quando o núcleo da Palestina se revitalizou, gradualmente tornando-se o centro desta nova literatura, marcou o fim do policentrismo na literatura hebraica. Ela deixou de ser exclusividade de um círculo de estudiosos e filósofos para transformar-se na literatura de um povo enraizado em sua própria terra.


Na década de 1920 e início da de 30, foi substituído todo o sistema fonético da língua hebraica. A acentuação das palavras e a pronúncia das consoantes e vogais modificaram-se totalmente; o hebraico passou da pronúncia ashkenazita do leste europeu para um hebraico sefardita, o que representou uma crise de natureza especial que nenhuma outra poesia moderna precisou enfrentar.


Por volta dos anos 30, a transformação do hebraico em língua viva estava completa. Em Israel havia milhares de leitores, muitas livrarias e bibliotecas públicas, estabelecimentos literários com periódicos, editores, críticos, união, oposição, prêmios e cafés literários. Sem suporte governamental, a Histadrut (Central Trabalhista) auxiliou no estudo da literatura nas escolas, provendo os escritores com trabalho e leitores, com a criação do Jornal Davar (Palavra) e da Editora Am Oved (Povo Trabalhador), por exemplo.


Em geral, existiam mais poetas do que escritores de ficção e prosa nas revistas, escolas e noites culturais. Um teatro satírico cresceu. A poesia tinha papel importante na vida cotidiana. O público gostava de cantar e os poetas e compositores cooperavam, produzindo músicas sobre a pavimentação das estradas, a construção de casas, a sentinela, os feriados judaicos, os pioneiros na Galiléia e no Néguev, além, obviamente, das temáticas pessoais. O sucesso popular desta poesia pode também ser visto nas antologias que se esgotavam após sua publicação.


Com Bialik e Tchernihovsky, a poesia hebraica fora assentada no solo do romantismo. A cultura hebraica que foi criada e funcionava dentro de um sistema de renascimento nacional, necessitava do romantismo e apegava-se a ele. Mas ela não ignorou a disposição do espírito da época e foi vulnerável às influências que solaparam o lugar dos valores básicos românticos, como a do decadentismo europeu, que criou na poesia uma luta entre o espírito do renascimento e a irrupção de forças de juventude no espírito de fenecimento, lassidão e cinismo, ou a influência do simbolismo russo e do neo-romantismo alemão, que levou à contestação do apego da poesia ao concreto, ao rompimento da ligação entre o eu e a natureza.


Logo após a Primeira Guerra Mundial, penetraram na poesia as correntes poéticas pós-simbolistas modernas: o expressionismo, o imaginismo russo, o futurismo e, com certo atraso, o imagismo anglo-americano. Essa irrupção não levou à anulação imediata das disposições de espírito poéticas anteriores, românticas, simbolistas e impressionistas. Assim, criou-se no espaço da poesia hebraica um torvelinho de estilos e combinações que conduziu, de um lado, a uma multiplicidade de matizes e a uma riqueza incomum e, de outro, a divergências, a uma guerra de gerações, a passagens drásticas e surpreendentes no desenvolvimento individual de muitos poetas, que trocaram de poética ou de estilo. Durante as décadas de 20 e 30, foram criadas em hebraico poesias com as quais seria possível montar uma antologia que refletiria o desenvolvimento dos gostos da poesia européia desde o final do século XIX.


Na década de 20, o modernismo apegou-se a modelos pós-simbolistas, combinando com as experiências do ‘abalo apocalíptico’, sofrido pelos judeus e pela humanidade no período da guerra, e o impulso do empreendimento sionista no futuro território de Israel, com a Declaração Balfour e a entrega do Mandato à Grã-Bretanha, pela Liga das Nações (que poderia concretizar a Declaração, no estabelecimento de um ‘lar nacional’ para os judeus).


Dentre os fatores que possibilitam uma descrição do desenvolvimento da poesia hebraica moderna, Miron (1997) destaca a vinculação básica da poesia ao sionismo; a abertura da poesia do início do século às variadas fontes de influência e sua ligação com numerosos modelos poéticos; o fato de a poesia, como toda a nova literatura hebraica, ter-se baseado no desenvolvimento da cultura da Europa e de suas literaturas, desde o humanismo e o neoclassicismo; a contribuição dos grandes artistas que, com as várias tendências e modelos em suas obras, influenciaram tanto os membros de sua geração, como os da mais jovem. Mesmo os que se rebelaram referiam-se ao modelo, na sua autodefinição, gerando uma continuidade dialética para a história da poesia.

 
A predominância poética tornou-se gradualmente modernista e neo-simbolista. Os poetas jovens, da primeira década do século XX, praticamente eram discípulos fiéis de Bialik e de Tchernihovsky.


“Seu apego aos modelos da poesia de seus mestres, especialmente aos dos poemas de Bialik, que os poetas, consciente ou inconscientemente, citavam, era tão íntimo que todo desvio deles, mesmo o mínimo, parecia tanto ao público da época quanto a alguns leitores e críticos posteriores um sinal de distanciamento inovador” (Dan Miron, "A poesia hebraica de Bialik aos nossos dias", introdução de Poesia Sempre, ano 5, nº 8, 1997).


O sistema poético do período anterior conservou-se e estabeleceu o tom da poesia e as suas linhas temáticas: uma fé romântica no eu e na força redentora da imaginação poética, a crença no renascimento do povo de Israel, o ativismo, a natureza e Eros. As características permaneceram vinculadas à fórmula bialikiana, com uma musicalidade baseada em métrica e rima rica ou num ritmo livre, sem métrica, enquanto a poesia desenvolveu-se de modo harmônico, em torno de um modelo rítmico central, numa linguagem hebraica rica, plena de alusões e citações das fontes clássicas, especialmente a Bíblia, não subordinada aos contextos originais das citações, mas fazendo deles um uso livre e renovado. Essa linguagem refletia o caráter nacional judaico da poesia, suas ligações com o passado cultural e a consciência da necessidade de uma revolução na vida nacional, imprescindível ao renascimento sionista.


Para Comey, desde Bialik encontramos poetas que merecem figurar entre os mais destacados no mundo e integrar uma antologia de poesia universal; pela poesia hebraica contemporânea desfilaram todas as escolas literárias e todas as tendências. A poesia anterior à criação do Estado foi escrita por poetas que conheciam a poesia mundial, cuja influência permite entendê-los melhor. Mas, escrevendo em hebraico, não só traduziam motivos da literatura universal para ele, como ao que há de intraduzível na sua experiência vital: o reencontro da velha língua com uma situação nova. O leitor de qualquer idioma encontra muitas semelhanças e familiaridades literárias com o seu próprio, pois em todo lugar o homem vive essencialmente os mesmos problemas e necessita sublimar-se por meios poéticos. Poesia em grego significa criação; assim, lida com o divino, com o paradigma do primeiro dia da Criação.


Partimos do pressuposto de que o importante no estilo lírico não são as conexões lógicas. A comunicação entre leitor e poema não exige a compreensão textual em primeiro plano. O leitor, primeiro, emociona-se, para depois entender. Por isto, Staiger afirma que, para a insinuação ser eficaz, o leitor precisa estar indefeso, receptivo. E isso acontece quando a alma do leitor está afinada com a do poeta. Ou como dizia Cecília Meireles, aliás uma apreciadora e tradutora de poesia hebraica: “a poesia, além de outras virtudes, possui a de tornar as criaturas compreensíveis umas às outras, na sua íntima verdade, que é a verdade do espírito. Compreender é de certo modo amar” (Cecília Meireles, Poesia de Israel, 1962).
 



Escrito por seth.israel às 10:10 PM
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Iehuda Halevi


Às vezes eu penso que nasci ashkenazi por engano. Gosto de idish, mas não sei falar quase nada. Aprecio um guefilte fish e um hering, mas adoro um falafel. Na verdade a culinária não é o fundamental na identidade judaica, mas que ajuda, ajuda. A minha paixão por Sefarad é intensa, profunda e enraizada. Motivos não faltam.
A cultura medieval sefaradi é repleta de sensibilidade e de poesia. Exemplos diversos aparecem no livro de orações ou Sidur. Não há texto mais deliciosamente “sabático” do que o Lechá Dodi. Não há oração mais precisa e definidora da Unidade Divina que o Igdal (uma síntese dos treze atributos divinos de Maimônides). A beleza e a perfeição rítmica e métrica do Adon Olam, tornaram esta poesia religiosa (Piut), uma versão precisa e ao mesmo tempo sensível da concepção judaica de D-us. São todas estas orações, obras da poesia religiosa medieval judaica. Os meus amigos judeus poloneses ou russos, que me desculpem: nada se compara aos Piutim (poesias inseridas no livro de orações judaicas=Sidur) sefaradim ou de origem hispano-judaica.
Há muito mais. A obra filosófica de Maimônides é o esteio do encontro da fé com a razão, da religião e a filosofia. Já as obras de Iosef Caro, que viveu em Safed (Israel) no século XVI são as bases, tanto da ordenação do Judaísmo normativo (sua obra “Mesa servida” ou Shulchan Aruch que ordena o cotidiano judaico até nossos dias) quanto da mística judaica ou Cabala. No que tange ao pilar da mística judaica, há divergências e polêmicas: o Zohar cuja autoria a tradição atribui ao rabi Shimon bar Iochai (século II da era comum), é visto pelos historiadores como tendo sido redigido pelo místico rabi Moshé filho de Shem Tov de Leon (de acordo com Dubnow e também Borger) que viveu na Península Ibérica no final século XIII e início do século XIV. Assim sendo, a mística e a filosofia nasceram e têm suas bases em Sefarad, ou seja, na Espanha medieval.
Um personagem se sobressai diante de muitos grandes sábios e rabinos. Iehuda Haleivi.
Nascido em Toledo, capital do reino de Castela, recém-conquistada pelo rei Afonso VI, por volta de 1086 e tendo morrido provavelmente em 1142, em local discutido. Estudou nos reinos muçulmanos no sul. Discípulo do sábio Alfasi. Além de talmudista, foi médico. Sua sabedoria e sua genialidade são únicas. Excedia nas suas poesias a Salomão Ibn Gabirol tanto na sua habilidade de escrever, quanto na sua espiritualidade.
É considerado o autor de uma obra de polêmica. Intitulada em árabe “O Livro da argumentação e de prova em defesa da fé desprezada” ou, em seu titulo hebraico, “O Cuzari”. O eixo narrativo do texto se localiza no reino da Cazária, alguns séculos antes. Explicamos: os judeus na Espanha muçulmana tinham trocado correspondência com um reino localizado no sul da atual Rússia, próximo da Ucrânia que se intitulava Cazária. O rei deste reino se converteu ao Judaísmo. Isso tem fundamento histórico, mas há certa dose de mito e lenda misturados com os fatos.
Iehuda não era historiador e nem pretendia sê-lo. Ele faz uma obra de ficção e filosofia, criando sua representação imaginária de como teria sido esta conversão. O rei solicita a presença de um padre, um cadj muçulmano e um rabino, e faz entre eles uma disputa religiosa. Essas disputas eram comuns no medievo. Na obra de Iehuda o vencedor é o rabino. Seu eixo temático é a “eleição do povo de Israel por D-us”, que na concepção de Iehuda é uma segunda Criação: tem a mesma grandiosidade da Criação dos Céus e da terra, visto ser a definição do instrumento da Redenção. O povo de Israel era eleito para consumar o projeto divino da História. E por que o povo sofria tanto e passava por tantas provações. Iehuda compreende que esta seja a sina do povo eleito que se assemelha ao coração da humanidade: sofre por ser o centro da humanidade, mas tem a sensibilidade e o comando dos fatos cruciais. È o instrumento de D-us.
A poesia de Iehuda esta impregnada das suas concepções filosóficas. O povo de D-us disperso pelo mundo, deve voltar a sua terra. De uma maneira mística e ao mesmo tempo prática, concebe o retorno do povo judeu como uma espécie de pré-condição da Redenção. Faz dos profetas seu fundamento, mas usa da poesia como o veículo estético e espiritual de seu sonho: voltar a Sion (Jerusalém).

No Oriente
Meu coração está no Oriente e eu, no extremo Ocidente
Como poderia eu provar meus alimentos e saboreá-los?
Como poderia eu cumprir meus votos e meus juramentos,
Quando Sião está nas cadeias de Edom e eu, na servidão árabe?
Fácil seria a meus olhos renunciar a todo o bem de Sefarad,
Tão precioso é a meus olhos contemplar as areias do Santuário desolado.

Na sua época os cristãos e os muçulmanos pelejavam na Península Ibérica (Espanha atual) e no Oriente, visto ocorrer nessa época as Cruzadas. A insegurança era enorme. Assim, na poesia descrita acima se define a condição de sua época: Edom pode ser o reino Cruzado ou cristão. Ele estava no Ocidente (reinos ibéricos ou Espanha atual) e sonhava com a volta a Jerusalém que estava no Oriente. As potencias cristãs e muçulmanas eram entraves ao livre transito dos judeus, no caso, dele mesmo, ao local aonde se situavam as ruínas do templo destruído.
Iehuda não vive imerso no sonho. A tradição diz que ele empreendeu sua viagem ao Oriente: em 1141 atravessou o Mediterrâneo e viajou até o Egito. Após algum tempo dirigiu-se a Jerusalém. Não sabemos ao certo o que lhe ocorreu. A lenda diz que ao penetrar nas ruínas de Jerusalém foi atropelado e morto por um cavaleiro árabe. Sua sepultura foi feita na Terra Santa. Sua obra poética tem forte inspiração proto-sionista: inspirado nos Profetas concebe um reencontro do povo de Israel com sua terra. Sua morte e sua vida se complementam: viveu e morreu em função de seu sonho de voltar a Jerusalém.



Escrito por seth.israel às 10:07 PM
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A MULHER JUDIA E A PIONEIRA
(A mulher na literatura hebraica halutziana)

a) A mulher judia.

O feminismo e a posição da mulher na sociedade continuam sendo temas polêmicos em nossos dias. Não é exagero dizer-se que, em geral, as mulheres judias sempre receberam um tratamento muito melhor, por parte dos homens de seu povo, do que as mulheres de outras origens.

Certamente, não é possível pretender-se que a posição da mulher judia fosse permanentemente fixada pela lei bíblica e rabínica. Não obstante, em grande parte das mais remotas localidades onde viviam os judeus, eles conseguiram manter a tradicional atitude de respeito, gentileza e humanidade para com a mulher.

Está escrito no livro de Gênesis depois que Deus criou Adão: “e viu Deus que não era bom para o homem estar só”. Isto em oposição ao que foi dito em todos os outros dias de Criação em que Deus aprovou o que fez e disse: “E viu que estava bom:”. No 6º dia, Deus se deparou com o problema de que não era bom Adão estar só. Mas o que faltava a Adão? Não era uma simples companhia, pois neste caso Deus lhe criaria um amigo... o que lhe faltava era um complemento, algo que o completasse com qualidades que ele não possuía. Surgiu então a solução: “E disse o Eterno; far-lhe-ei uma contra-ajudante (EZER KENEGDÓ). Interpreta o exegeta Rashi - que expressão é esta? E responde: se o homem merecer... ela será sua melhor ajudante em toda a sua vida! Mas...se não merecer...será a do-contra! Vemos que a mulher foi criada como uma companheira do homem, para que juntos trabalhassem lado a lado - num plano de igualdade. Cada qual com sua missão, conforme sua capacidade, por Criação Divina diferentes um do outro.

Como em hebraico a palavra para seu lugar de origem - tzela - pode significar tanto “lado” como “costela”, há muitas interpretações interessantes sobre a criação de Eva. Há uma que afirma que Adão e Eva foram criados lado a lado, mas não face a face. O Zohar conta que o mundo e o homem eram então ainda imperfeitos - mas, quando a mulher foi tirada do seu lado e colocada face a face, ficou perfeita, e o homem também.

Podemos olhar para trás, por exemplo, para a vida da primeira mulher judia, Sara. Na Parashá (seção) da Torá que tem o seu nome, Haiei Sará (A vida de Sara), lemos o que Deus disse a Abraão: “Tudo o que Sara lhe disser, escute a voz dela” (Gênesis). Lendo a Torá, acha-se uma idéia extraordinariamente diferente sobre a mulher; não a da idealização romântica, mas sim a da reciprocidade.

Embora os hebreus, como era inevitável, tivessem sido afetados pelos padrões e maneiras de ver orientais em sua atitude para com a mulher, o papel desta, na antiga sociedade judaica, conforme se constata na Bíblia, freqüentemente revestiu-se de importância. Isto aparece não só na figura das matriarcas, mas também na caracterização de Miriam, Débora Hulda, ou (com diferenças óbvias) das rainhas Jezebel de Israel e Ataliá de Judá. O Livro dos Provérbios acautela os homens contra os ardis femininos, mas também descreve a “mulher forte” que é o esteio de sua casa. No período do Segundo Templo, a Rainha Salomé Alexandra reinou na Judéia.

Nos tempos helenísticos a posição legal da mulher judia na Palestina era superior ao da grega, por gozar de personalidade jurídica independente, podendo possuir bens. Esta continuou a ser a sua posição, cristalizada na lei talmúdica, segundo a qual podia possuir bens quando solteira ou viúva e reter certa propriedade depois do casamento, embora os acréscimos devessem ir para o marido. Não podia, no entanto, testemunhar, exceto em casos de Aguná. O Talmud mostra-se inteirado do poder sexual da mulher. Entre os rabinos, algumas mulheres, como Beruria, exerceram grande influência pessoal.

O judaísmo rabínico centralizou e quase restringiu a posição da mulher ao lar, isentando-a do cumprimento de muitos preceitos, embora os ritos religiosos domésticos tivessem ficado principalmente em suas mãos. Contudo, o estabelecimento geral da monogamia (c. de 1000E.C.) fortaleceu a posição da mulher; a poligamia continuou a ser legal para os judeus do Oriente, embora seja atualmente ilegal em Israel. Além disso, a saudável atitude rabínica para com o sexo e a insistência na virtude positiva das relações conjugais implicavam que a dignidade da mulher era reconhecida não obstante sua inferioridade jurídica.

Nota-se na Espanha que nos tempos de perseguição, a mulher dava o exemplo de martírio pela fé. No século XVII, mulheres como Benvinda Abravanel ou Gracia Mendes tiveram lugar de destaque na vida judaica. Por outro lado, a instrução da mulher era seriamente negligenciada. Na Europa Oriental havia uma tradição segundo a qual a mulher devia trabalhar para facilitar os estudos do marido. Nos últimos anos, a mulher tem se destacado no pioneirismo sionista e também na vida pública judaica (por exemplo Golda Meir) e organizações como a Hadassah e Wizo ocupam posição de vanguarda na comunidade. A mulher em Israel tem recebido direitos, igualdade de instrução etc. embora ainda sofra de certas desigualdades em assuntos de estatuto pessoal, que são sujeitos aos tribunais rabínicos.



Escrito por seth.israel às 10:05 PM
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b) Sionismo e as aliot

Voltemos um pouco no tempo, recuando ao século XIX, para podermos entender a origem da pioneira (halutzá). Para tal, vamos falar um pouco de História.

Embora a crença no retorno dos judeus a Sion tenha sido sempre parte do messianismo, o termo sionismo só foi cunhado em 1890. O interesse pelo nacionalismo secular inspirou-se nas agitações nacionalistas na Europa do século XIX, e contrastava com a postura de muitos judeus emancipados, que se consideravam cidadãos das nações européias que os hospedavam. O ressurgimento do anti-semitismo veio provar aos judeus nacionalistas que a modernidade iluminada fracassara na sua integração à sociedade cristã. Ao mesmo tempo, judeus tradicionalistas da Polônia e da Rússia formaram seus próprios grupos sionistas, influenciados por escritos de rabinos do século XIX, que argumentavam que os judeus deviam tomar o processo da redenção em suas próprias mãos, não esperando meramente que o Messias reunisse os exílios. Os pogroms da década de 1880 na Rússia fortaleceram o sentimento sionista e a militância judaica.

Durante a segunda metade do século XIX surgiu um novo movimento de retorno a Israel e de renascimento da vida nacional judia. A primeira fase foi empreendida pelo Ishuv (a comunidade que já vivia no país). Em 1860, os judeus construíram o primeiro bairro fora dos muros da Cidade Velha de Jerusalém. Nesta década, dois periódicos hebraicos eram publicados regularmente em Jerusalém e ambos conclamavam a retornar ao país. Em 1870 se habilitou a primeira escola agrícola judia em Mikve Israel. Em 1873, os judeus de Jerusalém fundaram a primeira aldeia nova no país: Petah Tikva (a 41Km de Tel Aviv). Outras aldeias foram fundadas perto de Jerusalém e na Galiléia.

Em 1891 e nos anos subseqüentes, os imigrantes judeus, pertencentes ao movimento Hovevei Sion (Amantes de Sion) chegaram a Israel da Europa oriental. Alguns se fixaram nas aldeias existentes; outros fundaram localidades novas. Algumas das aldeias estabelecidas durante as últimas décadas do século, são até hoje grandes cidades como Hedera e Rishon Letzion. Os judeus que retornaram ao país durante este período são chamados de a primeira aliá (“Aliá” significa ascensão, literalmente; na prática, passou a entender-se como imigração a Israel).             

As condições em que a Primeira Aliá e as subseqüentes ondas imigratórias se assentaram no país foram sumamente difíceis. A população era reduzida e dispersa; as comunicações, escassas e inseguras; o país se encontrava em estado de abandono; prevaleciam os pântanos e a malária. A administração otomana era hostil e opressora; a vida dos imigrantes era um suplício e novas aldeias sobreviviam precariamente.

Em 1897, Theodor Herzl organizou na Basiléia o Primeiro Congresso Sionista e fundava a Organização Sionista Mundial (Sion era o sinônimo tradicional de Jerusalém e de todo o país - daí o nome do movimento que expressava, em novos termos, a antiga esperança do povo judeu retornar à sua terra).  Sua meta era dupla:
- Levar a cabo o retorno dos judeus ao país e restaurar a vida nacional judia: social, cultural, econômica e politicamente.  
- Obter um lar para os judeus, reconhecido e garantido legalmente, em sua· pátria histórica, onde ficassem livres de perseguições e onde pudessem levar sua vida e sua identidade.

Sob o impacto do movimento Sionista, chegou a Israel uma Segunda Aliá (1904-1914), fortalecendo as aldeias existentes e fundando outras novas. O Ishuv começou a organizar-se politicamente. Em 1909 foi fundado o primeiro Kibutz, Degania, sobre a costa meridional do Lago Kineret. No mesmo ano  foi fundada  Tel Aviv . O hebraico passou a ser a língua principal do Ishuv e começa a ser produzida literatura neste idioma.

A vida era árdua e muitos dos novos imigrantes voltaram a seus países anteriores. Em 1914 havia 85.000 judeus no país. Quatro anos depois foi ocupado pela Grã Bretanha, que o governou durante trinta anos. Aqueles que ficaram da Segunda Aliá, eram diferentes de outros imigrantes que colonizaram, por exemplo, a Austrália, o Canadá ou os Estados Unidos. Não procuravam terra fértil, ouro ou oportunidades ilimitadas de ascensão social. Nem foram contratados por companhias ou governos ansiosos por livrar-se do excesso de população ou expandir os territórios sob seu controle e disso tirar proveito econômico.



Escrito por seth.israel às 10:04 PM
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c) Halutzim e haluzot

Estes homens e mulheres chamavam a si próprios Halutzim (halutz = vanguarda), os que iam na frente reconstruir sua própria nação. Os Halutzim eram sonhadores. Logo que chegavam à Terra de Israel (como já a chamavam), trocavam seus nomes, hebraisando-os, como se estivessem renascendo. A insistência com que usavam o hebraico reflete uma proposta de vida (em contraste com o ídishe, velho dialeto da Diáspora). Suas cartas expressavam um forte desejo de descobrir o sentido da existência. Passaram a acreditar que a chave mágica para guiar suas vidas, era o trabalho físico no campo e não só para homens: a Segunda Aliá emancipou a mulher judia. “Uma nação lutando por ser reconhecida como igual entre outras nações não pode dar-se ao luxo de não aceitar as mulheres iguais entre os homens” declarou Theodor Herzl no Primeiro Congresso Sionista (1897), sublinhando que o ressurgimento do povo judeu na terra de Israel seria conseguido através do mútuo esforço de homens e mulheres.

Durante as décadas seguintes, um crescente número de jovens judeus vieram à terra “para construí-la e serem construídos por ela”. Eles criaram uma nova sociedade que não era somente sionista na sua ideologia e socialista em perspectiva, mas também igualitária ao máximo. Esses três elementos - Sionismo, Socialismo e Igualitarismo - constituíram a força revolucionária que gerou o êxodo dos judeus dos guetos europeus e a reconstrução de um lar judaico na Terra de Israel.

Embora fossem pouco numerosas, as pioneiras (halutzot) marcaram de modo significativo a sociedade israelense. Antecipando por muitas décadas os movimentos de liberação feminina em outras partes, as mulheres vindas com os primeiros pioneiros procuraram a igualdade insistindo em compartilhar os trabalhos. Elas limparam campos cobertos de pedras, participaram nas colheitas, construíram estradas e casas, e vigiaram seus vilarejos ao lado dos homens.

Golda Meir, em seu livro autobiográfico, descreve criticamente o empenho feminista das halutzot:“Permitam-me explicar que naquele tempo as mulheres de Kibutz detestavam trabalho na cozinha, não porque fosse difícil (em comparação com outros trabalhos na colônia era até bastante  fácil) mas porque o achavam humilhante. Sua luta não era por direitos cívicos iguais, que já tinham em abundância, mas por encargos iguais. Queriam que lhes dessem trabalho idêntico ao que era dado aos seus companheiros masculinos -pavimentando estradas, capinando, construindo casas, ou ficando de guarda- e não ser tratadas como se fossem diferentes e automaticamente relegadas à cozinha. Tudo isso pelo menos meio século antes que alguém inventasse a expressão Womens Lib. O fato é que as mulheres do Kibutz estavam entre as primeiras e mais bem sucedidas combatentes pela verdadeira igualdade em todo o mundo.”



Escrito por seth.israel às 10:04 PM
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d) Literatura hebraica israelense e a poesia.

A moderna literatura hebraica não nasceu em Israel, mas teve início com o iluminismo europeu, em diversos países da Europa, principalmente Rússia e Polônia. Voltando ainda mais no tempo, o renascimento formal da poesia hebraica foi apressado pelo aparecimento do jornal hebraico Ha-Meassef (“O Colecionador”, 1783-1810), editado pelo círculo de  “Ilustradores” de Mendelssohn. Inúmeros escritores e sábios colaboraram nessa publicação e poetas imprimiram ali versos sobre temas leigos. Esse interesse pelo secular - ou, como diziam os tradicionalistas, “o profano” - criava uma perturbação nas hostes religiosas judaicas, onde até aquele momento somente fora aceita a poesia hebraica de caráter devocional ou litúrgico, e onde qualquer expressão de secularismo era considerada perigosa, pois poderia encorajar os judeus a se afastarem da fé. O período entre as duas guerras mundiais, sobre o qual vínhamos falando, quando se revitalizou o núcleo israelense, que gradualmente veio a tornar-se o centro desta nova literatura, marcou o fim do policentrismo  na literatura hebraica. Em Israel, a literatura deixou de ser, pela primeira vez, em milênios, exclusividade de um círculo de estudiosos e filósofos, para se transformar na literatura de um povo enraizado em sua própria terra.

Ben Tzion Tomer, escreve no prefácio a uma antologia de poesia hebraica, que muitos falam no “milagre do renascimento” do idioma hebraico, porém o verdadeiro milagre não é o renascimento dessa língua mas sua imortalidade durante um período de tempo tão grande. Na verdade, desde que o povo de Israel foi exilado, após a destruição do Segundo Templo, seus escritores jamais deixaram de usar o idioma. Quem conhece a história da poesia hebraica sabe que nunca cessou a criatividade nesse terreno.

Se virmos nas palavras um reflexo do destino do homem e da terra, então constataremos que ocorreu um milagre com esse povo: graças à força e a nostalgia que tais palavras encerram, foi devolvido a esse povo seu destino e sua terra. Ele não teve, durante séculos, outra força mais forte. Foi somente com o vigor dessa fé no significado das palavras, que lhe foi possível criar a realidade de sua vida. Este é um dos casos raros na história humana em que as próprias palavras produziram história.

Sente-se nos poemas da geração dos pioneiros o entusiasmo do homem que descobre uma vida nova,  paisagens novas, que procura traduzir em sua obra poética este reencontro com uma terra desértica e inculta, seu amor por ela; mas descobre-se aí, também, a nostalgia de sua infância, a voz do vento outonal que eles ouviram, quando meninos, na Rússia, na Polônia, na Alemanha, e ao mesmo tempo os ecos da linguagem bíblica, bem como as influências da poesia européia contemporânea, assimiladas da maneira mais natural e integradas no que o homem judeu tinha de mais específico nele.

Segundo Léa Goldberg, entre os temas da poesia israelense contemporânea, há evidentemente os que são particulares: o retorno à pátria ancestral, sua colonização, sua construção, o combate incessante para resguardá-la, temas que não podem encontrar fora daqui sua expressão. Contudo, é uma poesia lírica, de amor e de natureza, de sonho e de realidade, como a de todos os poetas do mundo desde que o homem escreveu seu primeiro verso. Esta poesia não é senão uma das vozes do coro universal de poetas. 



Escrito por seth.israel às 10:04 PM
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e) A literatura halutziana

O halutzianismo foi o movimento que, ao lado das correntes estéticas modernistas, marcou o espírito e as tendências da literatura hebraica na Palestina, principalmente na década de 1920. Na temática do halutz, do jovem pioneiro que através do labor pessoal e da disposição para o sacrifício realiza a construção redentora do povo, inspirou-se uma vasta messe poética. Além da chamada “geração de Bialik e Tchernihovski”, que começa então a fixar-se e a produzir em Israel, surge um grupo de transição e outro de jovens que une por vezes o vanguardismo sócio-nacional com o artístico.

Segundo Reuven Kritz, em seu estudo “Hebrew Poetry”, os poetas sentiram que um novo mundo demandava uma nova poesia. Por causa da sua familiaridade com o simbolismo europeu, formalismo e expressionismo, eles trazem correntes modernas para a poesia hebraica. Notavelmente entre essas figuras estão Shlonsky, Uri Zvi Grinberg, Rachel, Shin Shalom, Natan Alterman e Léa Goldberg.

Por volta dos anos 30 a transformação do hebraico em uma língua viva estava completa. A Palestina ostentava dezenas de milhares de leitores, muitas livrarias e bibliotecas públicas, estabelecimentos literários com periódicos, editores, críticos, união, oposição, prêmios, cafés literários e conversação literária. Sem um suporte governamental para a literatura, a Histadrut (a Central Trabalhista) auxiliou no estudo da literatura nas escolas, provendo os escritores com trabalhos e leitores. Entre as duas guerras mundiais, muitos dos escritores hebraicos foram viver na Palestina. A terra de Israel foi dali em diante o centro da cultura hebraica.

Geralmente falando, existiam mais poetas do que escritores de ficção. Nas revistas, nas escolas e nas noites culturais a poesia era mais proeminente do que a prosa. Um teatro satírico cresceu, suas músicas eram cantadas largamente pelo público. A poesia desempenhava uma parte importante na vida cotidiana: o público gostava de cantar e os poetas e compositores cooperavam, produzindo músicas sobre a pavimentação das estradas, construção de casas, a sentinela, músicas para os feriados judaicos em nova vestimenta, músicas para os pioneiros dos estabelecimentos na Galiléia e no Neguev, para os soldados, moças e rapazes, da Brigada Judaica e  do Palma’h. O sucesso popular desta poesia pode também ser visto nas antologias que se esgotavam após publicação. Na introdução de uma delas, o editor relata que escolheu poemas adequados para leitura pública e tendo em mente o gosto do público.

Ainda que o mundo particular da maioria dos poetas estivesse dividido entre lembranças da infância de “lá” e experiências do presente, desejavam aprofundar raízes “aqui” -  “a dor de duas terras natais”, como  Léa Goldberg chamou. É de se estranhar que haja tão poucas escritoras de poesia em hebraico, embora o mesmo não aconteça em outras literaturas. Há, porém, algumas poetas altamente consideradas em Israel.



Escrito por seth.israel às 10:03 PM
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f) Cânone e literatura feminina

A recente discussão sobre o cânone tem sido da maior importância, não só nos Estados Unidos, mas no cenário acadêmico mundial da última década. Correntes teóricas como o feminismo, o neo-historicismo e os estudos da cultura têm contribuído decisivamente para alterar nossa expectativa com relação aos textos canônicos.

Se o conceito de cânone - um conjunto de obras consideradas clássicas, obras-primas e patrimônio das futuras gerações - já contém um princípio de seleção e de exclusão, ele não pode estar desvinculado da questão de poder. Quem canoniza uma obra, está institucionalmente investido de poder e de autoridade para fazê-lo, e o fará de acordo com sua perspectiva, isto é: de sua classe, de seu grupo, de sua cultura. Mesmo uma rápida leitura das relações de obras canonizadas revela de imediato a exclusão de diversos grupos sociais, étnicos e sexuais. Culturas como a africana, a asiática, a indígena ou a muçulmana nunca estão representadas entre as chamadas obras-primas, até porque o cânone está centrado no Ocidente, restrito ao hemisfério norte, e é realizado a partir desta ótica. A presença esmagadora de autores europeus da elite e do sexo masculino também é evidente. E para transformar o cânone não basta incluir nomes femininos ou de autores de outras etnias. A questão diz respeito à canonização propriamente dita que deve ser posta em xeque, tendo em vista suas vinculações com o poder. O feminismo tem sido um fator decisivo de estímulo na busca de uma nova linguagem que transgrida os códigos sociais e as normas de uso. E algumas questões continuam na ordem do dia: é possível notar na literatura da mulher aspectos especificamente femininos? As diferenças se colocam através da linguagem ou do referente e do tema?



Escrito por seth.israel às 10:03 PM
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g) Poesia hebraica moderna feminina

Lili Ratok, em sua pesquisa sobre a poesia feminina hebraica, escreve que a poesia hebraica moderna abrange duas tradições literárias: a central, escrita por homens, e uma  complementar, distinta, escrita por mulheres. Estas tradições coexistiam como um sistema e até estabeleceram relação de reciprocidade entre si, mas existem entre elas diferenças que justificam uma tentativa de descrever a tradição invisível - a da poesia feminina. É uma tradição invisível porque as criadoras não se viam como pertencentes a um domínio distinto dos escritores de sua geração, pelo  menos até os anos 70. Neste sentido difere a poesia feminina hebraica das criações das poetas americanas nas três últimas décadas, pois estas, com o apoio da crítica feminista bifurcada, pretenderam criar uma tradição literária em separado para si próprias. As questões que ela levanta em sua pesquisa são: Qual a justificativa para tratar de uma tradição literária quando a pertinência a ela foi feita a posteriori pela crítica? Este não seria um processo arbitrário de caráter político, que não contribui à compreensão do caráter de existência e desenvolvimento do sistema literário? Teria a tradição literária feminina temática, poética e retórica próprias? Ela se distingue por uma linguagem própria especial? Será que a compreensão desta tradição literária auxiliará nossa compreensão da obra ou poema isolado, escrito pela mulher? Será que ela nos oferece meios para identificar uma poesia como criação de uma mulher ou de um homem?

Ela começa respondendo pela última questão: não existe um exame documental químico literário que possibilite saber com certeza se uma obra foi escrita  por um homem ou por uma mulher. Isto não permite rejeitar a essência da tentativa de descrever a tradição literária feminina cuja intenção é lidar com âmbitos mais amplos que a poesia isolada. Ela diz que a justificativa literária para este passo é a temática, a poética  e a retórica características da poesia feminina que, para ela, não são desconectadas completamente das da literatura da época, mas são distintas em grande medida. É fácil entender a causa da diferença no campo temático, por ser aceito que a experiência de vida diferente dos seres humanos os levará a escolher temas distintos que a expressem. Ela adota a base teórica de Elaine Showalter, em “A Literature of their own”,  que  identifica a singularidade do conteúdo feminino na literatura feminina.

Em outro estudo seu, “O problema da identidade na literatura feminina israelense”, Lili Ratok diz que é possível explicar a escolha das mulheres pela poesia como caminho de expressão própria, sobre o fundamento do mais profundo conflito entre amor e criação com o qual elas se defrontam em nossa cultura. A possibilidade de ver na poesia parte do rito do amor e apresentá-lo diante de si e dos outros como mensagem de amor, deu à poesia uma permissão que a mulher não conseguiu receber do conto. Quer dizer, como o amor tem um lugar tão importante na vida da mulher (como fruto da ideologia patriarcal), a representação da poesia como mensagem de amor da poeta ao amado resolveu o conflito de uma maneira sofisticada: a mulher mantinha sua feminilidade e era fiel ao amor, mas ao mesmo tempo era leal à sua originalidade e expressava seu mundo interior – na poesia.

Voltando à pesquisa sobre poesia feminina de Ratok, ela afirma que a corrente central da poesia hebraica moderna se distingue pela masculinidade, virilidade 

O conceito de “heroísmo”, é segundo Dan Miron, o conceito adequado às normas utilizadas no centro da poética comum da escola de Bialik. Não é sequer necessário interpretar a ligação entre heroísmo (guevurá) e virilidade (gavriut - em hebraico, do mesmo radical), para ver que este conceito, estabelecido por uma das maiores autoridades da crítica literária hebraica, testemunha sobre a masculinidade da norma literária pelo menos nas duas principais décadas do século. Miron descreve a relação entre o conceito de coletivismo sionista por um lado, e  individualismo nietzchiano, por outro. O conceito atesta a auto-confiança do criador na percepção do espaço e da natureza e na representação de um universo interior grande e impetuoso. O poeta é o “ser da expressão visionária” e seu estilo se distingue pela força retórica, na abundância figurativa e na percepção  de domínio em relação à realidade descrita - externa ou interna. Miron explica que este conceito expressa não apenas ideais poéticos mas também normas éticas e estéticas. Boaz Arpeli, segundo seu passos, coloca a influência deste conceito com longo alcance sobre a poesia hebraica, indo até a metade do século ou talvez até além, com algumas exceções, como Amihai.

A ligação entre a imagem do herói poético e a essência do mundo elaborado na poesia permite explicar também a relação entre ambos e fenômenos estilísticos importantes. O “enviado”, intermediário entre o leitor e a essência de outros mundos, necessitava de variados meios retóricos  e figurativos para cumprir sua missão, incluindo um repertório literário de símbolos grandiosos: a estrada, o profeta, o deserto, etc.  Na poesia feminina estão ausentes as ditas figurações, por não serem adequadas às suas dimensões e ao caráter do mundo descrito. As poetas foram forçadas a criar uma poética e uma retórica distintas, talvez dada a sua vinculação extremista ao ideal literário de sua época. Elas tiveram que moldar uma poesia intimista, ausente de pathos, na qual se dá muita importância ao pequeno e não ao grande e ao impetuoso. A imagem da sua heroína não passou pelo processo de mitificação característico do “eu poético”, como em Bialik, Shlonsky ou Uri Zvi Grinberg. Assim, a dimensão da arte poética está quase ausente de suas criações, e ao aparecer, reveste-se de uma forma completamente diferente dos poetas de sua geração. Buscando caracterizar a arte poética feminina, Ratok diz que, na ausência da percepção da missão política na tradição feminina, a poesia foi compreendida como embaraçoso desnudamento. Esta posição se baseia também no fato de que a poesia feminina era mais direta, pessoal e particular. A mitificação do “eu poético” e ligação de suas vivências aos assuntos nacionais e culturais importantes, impediram sua identidade com o eu biográfico.

Para isto contribuíram também os símbolos literários por trás dos quais se  ocultava  a personalidade da criadora. Como conseqüência, aparece nas poucas expressões poéticas na poesia feminina hebraica, o elemento vergonha no desnudamento, como na poesia “Sefer Shirai” de Rachel (de quem falaremos depois).

Ao analisar a retórica na tradição feminina Ratok identifica a poesia como parte do rito amoroso, como já foi dito. A sobriedade imposta à mulher como norma cultural, deu à poesia plena legitimação na expressão de sentimentos amorosos delicados. No universo de Rachel, por exemplo, só nos é conhecido o coração do amado, e mesmo o desejo físico só tem lugar através da negação. Quer dizer, enquanto a poesia dos homens tinha valor espiritual, cumprindo uma missão social e cultural e como instrumento de moldagem do universo nacional, histórico, ela não foi conhecida assim através da tradição feminina ao menos nos seus estágios iniciais. Na poesia das mulheres a poesia tinha outra função, menos valiosa, portanto não digna de um relacionamento poético específico.

A confissão, como mensagem de amor mais direta possível, obriga a escolha por uma linguagem simples relativamente, a fim de resguardar sua autenticidade. Assim, grande parte da literatura feminina, até os anos 60, se distingue pela simplicidade da redação. A poesia como mensagem de amor expressa  o centro da temática amorosa na poesia feminina, representação que não mudou, a não ser em pequena escala, no processo de desenvolvimento da tradição feminina. Este tema coloca na tradição a emoção e pressiona para as margens outros domínios como implicações sociais no campo nacional, histórico e cultural. Estes setores preenchem um papel mais importante apenas nas duas últimas décadas, nas quais também foi escrita poesia política pelas mulheres.

Quanto à definição do “eu” na poesia feminina, sua poética e retórica, Ratok diz que a tradição criada pela poesia de Rachel deriva do estereótipo aceito em relação à imagem feminina, a fim de transformá-lo  no percurso da poesia. Assim ela assume na poesia um eu que parte de sua definição como Shketá (pacífica) e descobre que há nela também uma base tempestuosa, subjugada; na poesia Ani Meodi Hafahpehet ela argumenta que apesar disto ela é fiel até o fim ao que é  importante de verdade: a mãe terra. Na poesia que começa com a declaração que se tornou um estereótipo: “Apenas de mim sei falar / estreito é o meu mundo, como o da formiga”, ela apresenta a mentira deste argumento superficial em relação ao universo feminino, quando fala no relacionamento com seu mundo como artista criadora. Os espaços físicos limitados do mundo feminino não vigoram no campo espiritual, determina Rachel com  vigor nestas poesias como em outras, criando uma retórica que caracteriza a poesia feminina: concorda com as idéias do antagonista (o homem) apenas a fim de retirar o tapete  debaixo dos seus pés no próximo passo.

Nancy Rosenchan, em seu artigo “Um toque feminino”, escreve que: “Inicialmente, é preciso lembrar que a presença feminina é muito recente na literatura hebraica: tem apenas cem anos. As mulheres sempre foram excluídas do estudo da língua sagrada, de modo que as primeiras que ousaram penetrar no universo fechado de uma literatura escrita por homens, nessa língua, não tiveram precursoras e modelos aos quais dar continuidade. Isto não significa, é claro, que a mulher estivesse ausente do universo poético ou ficcional desenvolvido pelos escritores. Tomando-se como base a literatura hebraica contemporânea escrita por homens, verifica-se que ela se preocupou com questões sociais coletivas, com o renascimento cultural e com a luta pela independência política.

Contra esse pano de fundo, o tratamento proporcionado às figuras femininas tem uma ressonância especial, ao corporificar questões coletivas. A literatura do último século e meio deu continuidade a uma longa tradição, na qual a figura feminina servia para simbolizar uma realidade inteira ou o povo judeu como um todo, desde a viúva desolada das lamentações de Jeremias à personificação de Sion como amada, na poesia medieval, até as tentativas modernas de se criar psico-histórias do sionismo ou de se lançar o discurso do pensamento sionista em termos de gênero (masculino/feminino). (...) Na passagem para o século XX e em suas duas primeiras décadas, o cenário poético era dominado por Bialik e S. Tchernichovsky,  entre outros. As regras poéticas de suas obras inibiram o surgimento e a publicação das poesias de mulheres. As regras estabelecidas, implicitamente, por estes poetas foram que a poesia deveria expressar experiências particulares e pessoais, que também contivessem um conteúdo nacional e universal; ao mesmo tempo, devia apresentar uma expressão rica, de muitas camadas, que brotasse de uma cultura literária de grande profundidade e ressonância. Esta não era a tônica da poética de mulheres. O gosto cultural e estético determinou as normas e restrições da poesia e, somente entre 1920 e 1922, estas barreiras foram rompidas por diversas poetas, ao mesmo tempo: Rachel Bluvstein (...) e Ester Raab começaram a publicar na Palestina e Elisheva Zukova-Bihovski e Yocheved Bat Miriam o fizeram no leste europeu. Estas poetas estabeleceram os padrões da poesia de mulher no modernismo israelense”



Escrito por seth.israel às 10:03 PM
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h) Exemplo de uma poeta pioneira: Rachel

Rachel (nome literário de Rachel Bluvstein), nasceu em Viatka, Rússia, em 1890, sendo que em Kiev estudou Arte e escreveu seus primeiros poemas. Era uma idealista social, que em 1909 foi para a Palestina com sua irmã, participando da segunda Aliá, engajando-se como pioneira numa fazenda coletiva em Rehovot. Apaixonou-se pela paisagem e pela vida rústica dos halutzim, regozijando-se com suas labutas preparatórias da restauração do povo judeu a uma vida ligada ao solo de seu lar ancestral. Quando a primeira escola agrícola para mulheres foi criada perto do Kineret (Mar da Galiléia), ela foi lá estudar. Em 1913, Rachel foi à França estudar Arte e Agricultura. Durante a 1ª Guerra Mundial ela teve que retornar à Rússia, onde lecionou para crianças judias refugiadas. Voltando à Palestina, estabeleceu-se no Kibutz Degania às margens do Kineret. Quando esteve na Rússia contraiu tuberculose, que piorou no clima quente da Palestina. Ela se viu forçada a abandonar seu amado Kineret e procurou alívio para sua doença em Jerusalém, Safed e Tel Aviv. Morreu num sanatório em Tel Aviv e foi enterrada, de acordo com a vontade, num cemitério perto de Kineret, a terra que ela mesma ajudara a lavrar. 

Embora ficasse confinada em sua cama, atacada de tuberculose, durante os anos e antecederam a sua morte, escreveu versos em que cantava em tons suaves as coisas que lhe eram mais caras ao coração. A proximidade com a morte refletiu-se também em sua obra. Também traduziu para o hebraico poemas de Anna Akhamatova e Francis Jammes. Seus poemas foram publicados sob o título de Shirat Rachel (A poesia de Raquel), englobando sua obra poética: Safiah (Renovo), Mineged Defronte) e Nevo (Monte Nevo). Rachel se tornou a imagem que personificou a segunda Aliá - juventude, beleza, aspiração, amor pela terra de Israel e pelo Kineret. A principal justificativa para a escolha de Rachel como exemplo, se deve a multiplicidade de leituras que podem ser feitas a partir dela, gerando contribuições à história da literatura, tanto à hebraica quanto à feminina. Além a sua importância na moderna poesia hebraica, também, por um motivo pessoal: ela ser o tema da tese de doutorado da autora deste artigo. 

Segundo Guinsburg, no seu “Guia”, Rachel, uma das introdutoras do estilo coloquial direto na poesia hebraica moderna, procurou exprimir-se numa linguagem senta de modismo e clichês literários, de breve mas profunda entonação emocional e sugestiva musicalidade. Seus versos, que gozaram de grande popularidade nos movimentos juvenis, falam inicialmente de suas experiências de halutzá animada  pelo sionismo existencial de Gordon, a quem dedicou a poesia de estréia Hala'h  Nefesh (Estado d’Alma),1920. Mais tarde, quando acometida pela tuberculose, as angústias da enfermidade e a expectativa da morte toldam o seu espírito de melancolia e pessimismo elegíacos, embora continue despontando nele, polifonicamente, os motivos do amor à vida e às suas potencialidades.

Segundo Miron, Rachel, foi a mais popular e influente poeta de sua época que, tendo chegado à poesia hebraica com uma carga lingüístico-associativa pobre, voltou-se à fonte neo-clássica. Ela quis colocar a poesia da vulnerabilidade e o sofrimento feminino não na expressão fortalecida, mas na contida: transforma "Gritos que lancei desesperada” em rimas polidas, mas também de expressão simples. Ela está entre os que devolveram o verso hebraico à poesia construída com exatidão, metrificada, rimada e concisa. Sua poesia expressou uma personalidade complexa,  não disposta a se expor e, por outro lado, o ethos da contenção e colocação no sofrimento do sionismo agrícola no espírito do movimento trabalhista. Todos esses fatores levaram à classificação de sua poesia como o modelo central da poesia hebraica de mulheres durante décadas. Os poemas eram simples, compreensíveis, expressavam sensibilidades femininas, mas também a bravura da contenção. Facilmente musicáveis, tornaram-se canções, servindo ao establishment do movimento trabalhista que nessa etapa se tornou dominante na ida política e cultural da comunidade judaica sionista do futuro Israel. Mais que tudo, elas anunciaram parte do desenvolvimento que caracterizaria a poética hebraica de Israel dessa etapa.



Escrito por seth.israel às 10:02 PM
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i) Conclusão

De acordo com a introdução, a mulher judia sempre teve um papel diferenciado em relação às de outras culturas. Também foram igualmente especiais os processos da recolonização de Israel e do renascimento da língua e da literatura hebraicas, em como da atuação feminina nos mesmos. Elas apareceram não só como escritoras, as como protagonistas de vidas intensas, marcadas por aventuras, idealismo, provações, árduo trabalho e sentimento. Sua obra poética, reconhecida e amada pelo público leitor, toca fundo a alma do mesmo, gerando identificação tanto elo que de mais específico apresenta, do colorido local da vida do halutz, como o que transparece de mais universal, falando sobre e  à emoção humana. Como disse Cecília Meireles “A Poesia, além de outras virtudes, possui a  de tornar s criaturas compreensíveis umas às outras, na sua íntima verdade, a  do espírito. Compreender é de certo modo amar”.



Escrito por seth.israel às 10:02 PM
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